“Temos de fazer uma mudança geracional e dar voz aos jovens”

A duas semanas de viajar para a Guiné-Bissau, Teresa Damásio falou com Link To Leaders sobre a mais recente instituição do Grupo Ensinus naquele país, do que a leva a trabalhar por mais e melhor educação em Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e agora na Guiné-Bissau. E do seu sonho para o futuro.

“Temos de fazer uma mudança geracional e dar voz aos jovens”

Os projetos tornam-se reais quando as pessoas acreditam e as equipas partilham. Teresa Damásio assenta a sua estratégia nesta certeza quando fala do IPT – Instituto das Profissões e Tecnologias, a mais recente Instituição do Grupo Ensinus. Em entrevista ao Link To Leaders, a advogada e professora universitária garante que, graças à sua equipa, vai ser possível colocar de pé esta Instituição que irá estar ao serviço de todas e de todos os guineenses já em setembro deste ano.

Com os olhos postos no mundo, Teresa Damásio quer, assim, apostar na internacionalização do Grupo Ensinus, onde é administradora delegada desde julho de 2016, grupo constituído por Instituições de Ensino Superior, o ISG, por Escolas Profissionais, o INETE, a Escola de Comércio de Lisboa e a Escola de Comércio do Porto, a EPET, o INAE, o IEG – em Moçambique, o Externato Álvares Cabral, o Externato Marquês de Pombal e o Colégio de Alfragide. Nestas instituições, a educação acompanha e reflete as principais preocupações da sociedade em constante mudança, garante.

O Instituto das Profissões e das Tecnologias é a mais recente instituição do Grupo Ensinus na Guiné-Bissau. O que mais pesou na sua tomada de decisão para uma melhor educação neste país?

Foram, nomeadamente, os estudos mais recentes feitos pela União Europeia e pela OCDE, e também naturalmente pelo governo português, acerca da necessidade que existe, cada vez maior, de termos em todas as sociedades, e muito particularmente naquela, um ensino profissional de qualidade. Naturalmente que é muito importante haver Ensino Superior, mas quando temos franjas da população com um abandono escolar tão elevado, o que faz com que não se consigam ter metas satisfatórias na conclusão da escolaridade obrigatória, é importante trazer outro tipo de instituições para o sistema educativo.

A Guiné-Bissau já tem ensino profissional há muitos anos, mas uma escola profissional como aquela que nós idealizámos e que estamos a criar não existe. Estamos situados numa das zonas mais centrais de Bissau, no bairro da Ajuda, e onde está o chamado polo universitário da cidade de Bissau. Quisemos com isso também valorizar o nosso instituto, colocando-o numa área da cidade onde circulam alunos e professores o dia todo. Queremos dotar os jovens guineenses, que têm níveis assustadores de abandono escolar e níveis muitíssimo baixos de qualificação. Por outro lado, as qualificações que temos no nosso instituto advêm, mais uma vez, dos estudos internacionais que apontam um conjunto de áreas chave para a Guiné-Bissau, e que “casaram” com aquilo que nós fazemos em Portugal. Temos muitas escolas profissionais em Portugal que atuam nas áreas em que vamos atuar na Guiné-Bissau, com exceção da agricultura e das pescas, que são dois cursos novos. Para nós é muito desafiante do ponto de vista do projeto porque são áreas completamente novas, que não temos nas nossas escolas, mas todas as outras áreas já temos há 20/30 anos e, portanto, estamos completamente à vontade.

Já há datas para abertura do IPT na Guiné-Bissau?

Neste momento estamos numa fase que para mim é muito desafiante e aliciante, que é a da instalação da escola, tendo como objetivo abrir no início de setembro e começar a recrutar alunos a partir do início de junho, na segunda quinzena. Para termos tudo pronto, faremos o recrutamento dos professores e em setembro teremos tudo a funcionar. As obras já estão a começar e é muito gratificante ver o interesse que houve na sociedade guineense. Houve por parte da nossa embaixada um excelente acolhimento, bem como por parte da União Europeia. Uma das coisas muito importantes do nosso projeto é que vamos fazer “brain gain”. Vamos trabalhar com professores de lá e adaptarmo-nos à realidade local. É, obviamente, uma escola guineense pensada para a sociedade guineense. Temos outro objetivo a médio/longo prazo. Obviamente, consolidar o IPT em Bissau e estendê-lo depois a duas outras zonas dentro do território da Guiné-Bissau e avançar para a cooperação com os países da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). O IPN vai arranca com 13 cursos com estágio integrado desde o primeiro ano.

Como vai ser gerir uma instituição à distância?

Já temos uma universidade e uma escola técnica em Moçambique, uma desde 1992 e outra desde 2014. Temos lá um administrador delegado, bem como o nosso corpo docente. Irá daqui depois um membro do meu staff para montar os serviços académicos. Estamos a trabalhar também em cooperação com alguns dos nossos diretores e professores da universidade que temos em Bissau, o que considero muitíssimo importante. Aquilo que queremos é também uma cooperação vertical entre o instituto e a universidade. Hoje em dia, com as novas tecnologias, gerir à distância é muito mais fácil.

Quais os grandes objetivos com mais este passo?

Para nós, que somos lusófonos, é podermos capacitar os cidadãos guineenses da língua portuguesa. Vejo o IPT como mais uma instituição de ensino no espaço da CPLP, num país que está também dentro da CEDEAO. Isso dá-nos responsabilidades muito elevadas, porque vamos estar a ensinar em língua portuguesa e teremos como segunda língua obrigatória, em todos os cursos e em todas as qualificações, a língua inglesa. E aqui demos um passo em frente, porque podíamos ter escolhido a língua francesa, que é a língua oficial da CEDEAO, do Senegal e da Guiné, mas escolhemos a língua inglesa porque estamos num mundo globalizado. A globalização fez-se em língua inglesa e nós queremos dotar os nossos alunos com as melhores competências e aprendizagens. Teremos a língua francesa no curso de Serviços Jurídicos e de Registo e Notariado. O que queremos é que quando o aluno saia do nosso instituto saiba falar e escrever bem em português e em inglês. Teremos um laboratório de línguas. Estamos neste momento a mandar todo o material, as cadeiras, as mesas, os computadores, as canetas… tudo.

Temos como objetivo ter o Instituto todo montado no fim do mês de maio. Uma colaboradora minha irá para lá durante três semanas e, quando eu for no dia 17 de abril, já terão a secretaria. Somos uma equipa muito jovem. Uma coisa que quero mostrar com o IPT, e que devia ser comum a todas as empresas, é que, de facto, temos de fazer uma mudança geracional e de dar voz aos jovens. Na Guiné-Bissau Bissau há um problema terrível com os jovens, que 75% das vezes não veem uma luz para o seu futuro. No meu caso tenho uma equipa jovem que mostra que é capaz de fazer, temos um arquiteto, um construtor… com esta meta: 17 de abril ter a secretaria e o gabinete da administração prontos e, no final de maio, ter as obras prontas. O edifício é muito grande e numa primeira fase vão estar prontas sete salas. A segunda fase, ficará para o próximo ano letivo. Estamos a concorrer também a fundos da União Europeia. Este ano abriremos o primeiro ano. São sete qualificações, sete salas e, no decurso do ano letivo, começaremos as outras salas, com o objetivo de em setembro de 2019 termos o edifício todo reabilitado e capacidade instalada para 17 salas.

Tem a equipa toda mobilizada…

A equipa está todo mobilizada com este projeto da Guiné-Bissau porque este instituto é filho do INETE. A lei guineense permite que se criem sucursais, portanto nós não criámos uma empresa nova, mas sim uma sucursal do INETE, onde nomeámos como nosso administrador delegado o Dr. Martilene dos Santos. A diretora do INETE, a Dra. Fernanda Torres, também irá para lá para estabelecermos os protocolos. Tudo isto já foi apresentado em reunião geral do grupo Ensinus, todas as diretoras estão a par do que se passa e todas conhecem as qualificações. A informação é transparente e transversal.

Já tinha sido pensada há muito tempo a abertura do instituto?

Não, é recente. A ideia surgiu no final de janeiro. É muito interessante ver a forma como as autoridades, quer nacionais quer internacionais, receberam o projeto. De facto, os governos, tal como agora em Portugal, perceberam finalmente a importância do ensino profissional. Por outro lado, na Guiné-Bissau neste momento não existe governo, mas a sociedade está toda a funcionar e isso é muito interessante. Já temos um diretor pedagógico, que vem estar connosco para ter formação. O que para mim é fundamental é que todos os que trabalham connosco percebam os nossos valores e a nossa missão. Sem formação não se consegue explicar isso às pessoas.

Depois do instituto estar pronto qual será a capacidade de alunos que poderá albergar?

Perto de 500 alunos, 475. É um número muito bom. Também já estamos a pensar em expandir dentro de Bissau para uma parte limítrofe junto ao aeroporto. Tudo isso por causa da agricultura. Quando temos um projeto temos de pensar a médio/longo prazo. Não podemos dizer “quero abrir um instituto” e depois? Temos de abrir dentro de Bissau, depois dentro da Guiné-Bissau e depois no Senegal. Já estamos com encontros nesse sentido, com o Presidente da República. Os projetos tornam-se reais quando as pessoas acreditam e as equipas partilham!

Então o próximo passo poderá ser o Senegal?

Será Dakar.  É muito importante esta questão da mudança geracional. Essa é uma preocupação que já transmiti à equipa de Bissau, nomeadamente ao corpo docente. Tem de ser um corpo docente jovem. Se queremos que a sociedade evolua, se queremos de facto fazer a mudança, temos de trazer as pessoas que trazem inovação e criatividade. Os mais velhos trazem experiência, têm um legado, mas precisamos de dar lugar aos mais jovens. Se na Europa é um problema, então em Africa é um problema ainda maior porque os mais velhos não deixam os mais novos terem voz.

Num grupo com 13 instituições – além do ISG e de dois estabelecimentos em Moçambique, o Ensinus integra também o INP, a Escola de Comércio de Lisboa, a Escola de Comércio do Porto, o INETE, o EPET, a INAE, o Colégio de Alfragide e os Externatos Marquês de Pombal e Álvares Cabral. Quais têm sido os seus grandes desafios desde que está à frente do grupo?

O projeto piloto da autonomia e da flexibilidade curricular, que conseguimos que o Governo autorizasse nas nossas escolas profissionais, porque era só para o Ensino Cientifico/Humanístico e nós temos as nossas escolas a participar, e o rebranding de todo o grupo. Quando entrei, em julho de 2016, tinha esse objetivo e fizemos o rebranding no dia 2 de março de 2018.  Era muitíssimo importante criar um espírito de união entre todos os dirigentes. Conseguimos com muita formação, em que contratámos o professor Xavier Aragai para nos ajudar a criar o perfil de pessoa que nós temos no grupo Ensinus. Vamos publicar um livro com ele em junho de 2019. Já estamos a trabalhar nisso, para deixar escrito, para memória futura, aquilo que é a nossa missão e que tipo de cidadãos educamos no grupo Ensinus.

Quando foi eleita administradora do grupo Ensinus, em julho de 2016, a Teresa imprimiu, desde o primeiro instante, uma liderança com cunho feminino. Tem sido fácil promover o empoderamento feminino?

Tenho a sorte de ter muitas dirigentes mulheres. Quase todos os diretores são mulheres. A minha equipa, com exceção do diretor jurídico e informático, é composto por mulheres. Se é fácil? Não, acho que é sempre difícil.

Quais têm sido os grandes desafios?

Ter de provar permanentemente que as mulheres conseguem gerir, conseguem dirigir, conseguem liderar, as mulheres no seu todo, tanto ao nível da equipa dirigente como nas chefias intermédias. Quando temos mulheres nestes sítios todos é sempre mais difícil. O que importa é que elas não se apercebam disso, ou seja, que sejam permanentemente empoderadas e daí a minha quase obsessão pela formação. Diria que todos os meses 25% do tempo delas é em formação. E quero que continue a ser assim, porque só assim conseguimos empoderar cada vez mais as mulheres.

A Teresa faz questão de ter reuniões semanais com a sua equipa. O que considera que tem contribuído para o sucesso do trabalho que tem desenvolvido?

Temos uma agenda até julho. Todas as pessoas têm conhecimento da agenda e todas as pessoas participam na agenda. Nas escolas não são só os professores que participam na vida da escola, mas também o corpo discente. Como aqui no ISG, em que já estamos a trabalhar com o professor Javier e em que, nestas reuniões mensais, para além das com os dirigentes, tenho reuniões de professores por áreas de grupo. Ou seja, se neste momento perguntar a qualquer pessoa dentro das nossas escolas o que é o grupo Ensinus elas sabem responder. Se perguntar quais são os valores, elas sabem dizer. Se perguntar o que vamos fazer em abril e em maio elas também saberão informá-la.

Entrevista publicada a 04/04/2018 pelo Link To Leaders